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segunda-feira, 28 de março de 2011

Projeto: Zum, plim, pá: sem som não dá pra brincar

Introdução:
 
        Cuidar do outro implica compromisso com o semelhante, é ação pautada em princípios e valores. Implica em desenvolver solidariedade e compreensão, em ter uma dimensão ética e de respeito com as pessoas. Aprender a cuidar do outro implica num intenso processo de interação e de formação de vínculos.
        O cuidado com o outro é concretizado em ações e atitudes realizadas para promover o conforto e o bem-estar do outro. O toque físico é uma das principais manifestações de cuidado e bem presente no cotidiano das crianças de educação infantil. O ato de tocar aproxima as crianças entre si.
        Ao cuidar do outro a criança começa a exercitar a ideia de se "colocar no lugar do outro", o que é, inicialmente, bastante difícil para as crianças tão pequenas. No entanto, por meio da forma como foram e são cuidadas pelos adultos e de como estes os auxiliam a perceber o que outro pode sentir, as crianças começam a desenvolver a empatia necessária para cuidar do outro.
        Cuidar é ajudar, é suprir necessidades do outro, ajudá-lo a superar as dificuldades em que se encontra. Cuidar é também ajudar o outro a cuidar-se, orientar, educar, incentivar, estar junto. O cuidado efetivo é sentido como uma expressão de interesse e carinho. Neste âmbito de experiência nossas ideias de Educação Infantil nos levam a querer crianças que possam acolher as diferenças, por meio da promoção de situações de igualdade e no auxílio à superação de diferenças.
        Os trabalhos em pequenos grupos, o conhecimento e o respeito às diferenças, a ampliação do conhecimento de outros povos e culturas, pode gerar bons projetos de trabalho neste âmbito.

Objetivos:
- Aproximar as crianças em torno de uma tarefa comum possibilitando uma atividade cooperativa;
- Conhecer a cultura lúdica de origem indígena;
- Conhecer uma escola de crianças com deficiência visual;
- Ajudar as crianças a se colocarem no lugar do outro;

Objetivo compartilhado com as crianças (produto final):
- Construção de brinquedos sonoros de origem indígena, a partir de sucatas, para doar a uma escola de deficientes visuais.

Material necessário:
- Filmes e livros ilustrados sobre a cultura indígena;
- Catálogos de brinquedos para deficientes visuais;
- Objetos sonoros indígenas podem ser encontrados em lojas especializadas em brinquedos da cultura popular, feiras de artesanato, mercados e lojas de representações de etnias;
- Sucatas domésticas e industriais diversas, limpas e sem problemas de segurança e toxidade - Ferramentas diversas alicate, tesoura, martelo, prego, arame, barbante, cola (sempre usadas com ajuda e supervisão do adulto).
Especificidades

0 a 2 anos:
       A criança a partir de 1 ano mais ou menos imita as ações dos adultos com os quais convive - imita falas, gestos, expressões e reações. Percebe-se um início ainda incipiente desses cuidados com o outro quando as crianças começam a imitar os adultos em situações de cuidados, como por exemplo, tentar dar comida para seu colega ao lado, colocar a chupeta na boca de um bebê que chora, ninar uma boneca ou, até fazer "massagem" em outra crianças após ter sido massageada.

2 a 5 anos:
        Nesta faixa etária a socialização começa a ganhar força. Ter um amigo do peito e agir em pares ou trios começa a fazer sentido para as crianças e um forte sentimento pode aparecer entre elas. Nas brincadeiras é comum as crianças fazerem coisas ajudando umas às outras, uma ensinando à outra como joga um jogo ou como rolar um pneu, já é possível nesta idade haver um sentimento de solidariedade quando alguém se machuca e alguns podem querer ajudar a cuidar do ferimento do outro. No entanto muitos preconceitos já se manifestam, assim como atitudes de intolerância que precisam ser tematizadas e conversadas claramente com as crianças. Por isso é muito importante que nesta faixa etária a criança possa conhecer a identidade cultural brasileira e a diversidade étnica que compõe o provo brasileiro

Desenvolvimento das atividades:

Atividade 1 - a professora apresenta às crianças um filme sobre alguma etnia indígena e conversa com as crianças sobre seu modo de vida, educação de crianças, alimentação.
Atividade 2 - o mesmo é realizado a partir de livros informativos ilustrados.
Atividade 3 - a professora apresenta o projeto aos pais e pede a colaboração deles caso tenham material sobre os brinquedos indígenas ou brinquedos sonoros em casa para que as crianças tragam à escola.
Atividade 4 - a professora apresenta para as crianças uma diversidade de brinquedos sonoros de origem indígena tais como chocalhos, bastões de ritmo, , matraca, trocano, pios de pássaros, entre outros.
Atividade 5 - as crianças são divididas em duplas por afinidade e livre escolha e convidadas a explorar em duplas os diferentes brinquedos, pesquisando do que e como são feitos.
Atividade 6 - conversar sobre os brinquedos em roda de conversa.
Atividade 7 - em duplas as crianças decidem qual dos brinquedos irão confeccionar.
Atividade 8 - a professora discute com as crianças se esse tipo de brinquedo tem valor para crianças que não enxergam.
Atividade 9 - realização de uma atividade externa, conhecer escolas que atendem crianças com deficiência e conhecer os brinquedos que elas usam.
Atividade 10 - Conhecer e explorar catálogos de brinquedos para crianças com deficiência visual.
Atividade 11 - escolher no sucatário, quais objetos podem ser usados para a confecção dos brinquedos sonoros.
Atividade 12 - as duplas levantam todo o material que vão precisar para fazer o brinquedo, tesoura, cola, papel, tinta, etc.
Atividade 13 - em duplas confeccionam o brinquedo ajudando-se mutuamente (quando não conseguem resolver um problema da confecção são incentivadas a buscar ajuda em outra dupla e/ ou à professora, sendo que esta auxilia sempre que julgar necessário).
Atividade 14 - A professora, com a ajuda das crianças e de seus pais, faz uma vistoria completa nos brinquedos para verificar se estão bem acabados e seguros.
Atividade 15 - As crianças empapelam e decoram uma caixa para colocar os brinquedos sonoros.
Atividade 16 - as crianças levam os brinquedos na escola de deficientes visuais.

Avaliação
        Durante todo o processo a professora registra a participação das crianças nas diferentes etapas, por meio de fotos, filmagens e relatos escritos para compor o seu portfólio
Quer saber mais?
BIBLIOGRAFIA
Referencial Curricular Nacional De Educação Infantil - Brasil, MEC
EDWARDS, CATHERINE, GANDINI, LELLA, FORMAN, GEORGE E. - Linguagens da criança - a abordagem de Régio Emilia na educação da primeira infância ARTMED 
Fonte: Revista Nova Escola.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O trabalho com projetos


        Quem já ouviu falar sobre o trabalho com projetos? Na Educação Infantil, esse tipo de trabalho tem sido bastante comentado nos últimos tempos. É esse o assunto desta aula. Assunto que aqui será tratado tendo como referência o livro de Abramowicz e Wajskop (1995) intitulado Creches: atividades para crianças de 0 a 6 anos, o texto “Organização do tempo na escola infantil”, escrito por Maria Carmem Barbosa e Maria da Graça Horn, o Referencial Curricular Nacional da Educação Infantil, do Ministério da Educação (MEC) e também o livro As Cem Linguagens da Criança, de C. Edwards, L. Grandini e G. Forman.
        Vamos iniciar com a pergunta: o que são projetos no contexto do nosso assunto?
        Utilizamos o termo trabalho com projetos para nos referir a estudos em profundidade sobre determinados tópicos, assumidos por pequenos grupos de crianças. O trabalho com projetos tem como objetivo ajudar as crianças a encontrarem um sentido mais profundo e completo dos acontecimentos do seu próprio ambiente e das experiências que mereçam a sua atenção.
        Os projetos fazem parte do currículo da Educação Infantil. É através deles, do ponto de vista pedagógico, que as crianças vão ser encorajadas a tomar suas próprias decisões e a fazer suas próprias escolhas sobre a realização de um trabalho, sempre em interação-cooperação com os seus colegas. Acredita-se que o trabalho com projetos reforça na criança a sua autoestima, uma vez que ela passa a acreditar na sua capacidade de pensar, concluir e criar, além de estimular o seu desejo de aprender cada vez mais.
        De uma maneira geral, podemos dizer que o projeto é uma forma de trabalho que envolve diferentes conteúdos e que costuma ser organizado em torno de um tema. Pode-se dizer também que é a realização de um estudo que será desenvolvido de acordo com a faixa etária das crianças.
        Muitas vezes, os projetos são planejados para alcançar um determinado produto final e acabam tomando outro rumo, mudando de propostas e de trajetória. Mas isso não importa, o que vale é que eles sempre geram novas aprendizagens e às vezes até novos projetos. Essas mudanças, que são necessárias em um projeto, dependem do professor. Ou seja, ele deve estar sempre atento, observando cada etapa e deve ser capaz de avaliar permanentemente o processo, estando sempre aberto à possibilidade de reestruturação do trabalho proposto.
        As atividades de um projeto podem incluir observação direta, perguntas a pessoas e a especialistas, coleta de materiais, representação de observações, de ideias, de memórias, de emoções, de imagens e de novos conhecimentos de várias maneiras, incluindo a montagem de um teatro.
        Vocês já devem estar perguntando: e como escolhemos o tema de um projeto?
        Não existe uma regra para essa definição. Mas nós podemos pensar em alguns critérios que podem ser seguidos.
        Os projetos podem ter como ponto de partida um fato acontecido na sala de aula ou na comunidade, uma notícia de televisão, uma ideia que surgiu após a leitura de um livro ou a simples observação de fenômenos naturais. Esses temas podem ser trazidos pelos professores, pelas crianças ou pelos pais... Às vezes, eles podem surgir de uma situação inesperada, imprevisível!
        O que é importante nós sabermos é que a ideia escolhida deve mobilizar o interesse do grupo como um todo. Tanto as crianças quanto os professores devem sentir-se atraídos pela questão. Vocês já se imaginaram conduzindo um projeto sobre um assunto que acham chato? Iria ficar bem difícil, não é?
        Os projetos podem ser realizados tanto nas creches quanto nas pré-escolas, isto é, com bebês ou com crianças maiores. Os temas a serem trabalhados com os bebês vão depender basicamente da observação que o professor faz da sua turma de crianças. Assim, vai ser de acordo com essa leitura que o professor irá escolher as atividades que podem ser importantes ao desenvolvimento das crianças. Pode-se iniciar, por exemplo, por meio das atividades de exploração dos materiais da sala, momento em que o professor observa, anota e, posteriormente, organiza atividades com um maior nível de complexidade e que geralmente se desenvolverão em torno de um eixo temático.
        Para ficar mais claro, dou um exemplo de um projeto para bebês. Ele foi desenvolvido para crianças de 1 a 2 anos de idade, em uma escola infantil da cidade de Barcelona, na Espanha, por ocasião das Olimpíadas, descrito no texto já citado de Barbosa e Horn. O nome do projeto é: “Aprendendo a mover-se no mundo”.
        O projeto está voltado para o desenvolvimento motor e espacial das crianças e pretende que elas realizem atividades em três diferentes espaços: na terra, no ar e na água.
        Assim, organiza-se o espaço para que as crianças possam se deslocar na terra:
Rolando no tapete;
Rastejando no colchonete;
“Andando de quatro” com almofadas;
Escalando rampas de madeira;
Passando pelo túnel: de pano, de espuma, de caixas de papelão;
Subindo e descendo escadas;
Descendo pelo escorregador;
Empurrando caixas e objetos;
Deslizando sobre um cobertor.
Possam também deslocar-se pelo ar:
Saltando;
Pendurando-se na barra;
Virando cambalhotas.
E desenvolvam atividades na água, sabendo:
Mergulhar;
Flutuar;
Saltar.
        Agora, vamos apresentar outro exemplo de projeto, realizado com um grupo de crianças de 4 e 5 anos na pré-escola Ada Gobetti na cidade de Reggio Emilia, na Itália. Esse projeto está descrito no texto “O que podemos aprender com Reggio Emilia?”, de Lílian Katz (1999). Foi assumido um extenso estudo sobre um supermercado cooperativo excepcionalmente grande naquela comunidade.
        Nós sabemos que um estudo de um mercadinho ou quitanda é um assunto popular em muitas creches e pré-escolas. Porém, algumas características desse projeto são especiais e merecem ser descritas e comentadas.         Primeiramente, as crianças realizaram várias visitas ao mercado, foram inclusive em um dia em que este estava fechado. Observem o que as crianças comentaram após essa visita ao supermercado fechado:
“Ele é tão grande quanto uma floresta.”
“A gente pode se perder dentro dele, como na Via Emilia.”
“É grande como a baleia de Pinóquio.”
“Parece uma piscina.”
“O homem no supermercado divide as coisas pela metade, metade em uma prateleira e metade na outra.”
        Assim, as crianças tiveram a oportunidade de observar com atenção as diferentes características do local visitado (pesquisado), desenhar muitos dos objetos e elementos que as impressionaram e andar pelos vários corredores, olhando qualquer coisa interessante no ambiente. Após a visita, elas foram capazes de realizar desenhos detalhados do supermercado: as fileiras de cestos, as caixas registradoras, consumidores com ou sem cestos, com ou sem crianças ao lado, balcões, e assim por diante.
        Entretanto, os desenhos têm pouco significado sem a documentação feita pelos professores daquilo que as crianças observaram, viveram e disseram sobre o supermercado. Os professores gravaram os comentários e as discussões das crianças e esse material ofereceu a eles possibilidade de conhecerem os níveis de entendimento das crianças e seus enganos de percepção sobre os fatos cotidianos.
        Vamos observar os comentários que as crianças fizeram sobre o supermercado, a partir da seguinte pergunta: O que você gosta de fazer no supermercado?
Empurrar o carrinho.
Tocar nas mercadorias.
Subir nas prateleiras.
Correr para lá e para cá.
Fazer perguntas a todo mundo.
Comer pedaços de queijo.
Saber o que está atrás das portas fechadas.
Comprar de tudo.
Olhar-me no espelho.
        Num outro dia, as crianças voltaram ao supermercado para comprar, prestando a devida atenção à preparação da lista de compras, pagando suas compras, recebendo o troco e, então, usando os itens para a preparação da comida, ao retornarem à escola. Algumas crianças entrevistaram o gerente e fizeram inúmeras perguntas sobre o que significa ser o “chefe”.
        Vejam quais foram os comentários das crianças relacionados ao gerente.
Questões sobre o gerente
Quem é o gerente?
“Ele é aquele que dá o dinheiro para alguém.”
“Ele é um presidente.”
“Ele é aquele que fica vigiando para ver se alguém rouba o dinheiro.”
“Ele levanta-se cedo de manhã, abre as portas e organiza tudo.”
Questões ao gerente
“Você é um chefe?”
“Quantas pessoas você dirige?”
“Como você se tornou um gerente?”
“Você ganha mais dinheiro que os outros?”
        As crianças também entregaram ao gerente sua “lista de solicitações”, refletindo suas opiniões sobre o que deveria ser acrescentado ao supermercado: uma sala para assistir televisão, sanitários confortáveis, um playground, um local para brincar com bonecas etc. Além disso, muitas crianças elaboraram suas próprias criações de pacotes de cereais, biscoitos, caixas de detergentes e similares. Elas também construíram um mercado na sala de aula e encenaram com prazer várias situações, incluindo o que observaram sobre os objetos, as pessoas, e sobre os acontecimentos no supermercado real.
        Um projeto sobre o supermercado local nos parece um assunto muito comum.
        Por que um professor escolheria tal item? Por que não foi escolhido estudar uma experiência bem diferente da que a criança está acostumada a viver? Isso não ajudaria a estimular o interesse infantil?
        A resposta é que quando o assunto de um projeto é muito familiar às crianças, permite que elas contribuam no seu desenvolvimento, no sentido de sugerir questões e linhas de investigação, além de possibilitar que as crianças assumam maior responsabilidade pelo encaminhamento e orientação que o projeto terá.
        Já se o tópico de um projeto é muito diferente e está fora de sua experiência direta, elas acabam por depender do professor para a maioria das questões, ideias, informações, reflexões e planejamentos. As crianças pequenas dependem dos adultos em muitos aspectos de suas vidas e de suas experiências de aprendizagem; entretanto, o trabalho com projetos é a parte do currículo na qual os interesses, ideias, preferências e escolhas das crianças são privilegiadas.
        Uma lição que devemos aprender é que até as crianças pequenas:

[...] podem comunicar suas ideias, seus sentimentos, seu entendimento, sua imaginação e suas observações por meio da representação visual [...] As representações impressionantes que as crianças criam podem servir como base para hipóteses, discussões e argumentos, levando a observações adicionais e a representações novas. (KATZ, 1999, p.43)

        Através do trabalho com projetos, podemos ver como a criança pode se envolver de diferentes maneiras na busca de uma compreensão mais profunda de tudo aquilo que está à sua volta.
        Vamos continuar a nossa aula conhecendo mais um exemplo de projeto que também se encontra descrito no livro As Cem Linguagens da Criança. Esse projeto foi chamado de “A multidão” e foi realizado na Pré-escola Diana, em Reggio Emilia, Itália. Ele foi documentado por Vea Vecchi e supervisionado por Loris Malaguzzi – grande educador italiano que idealizou o conhecido trabalho desenvolvido em Reggio Emilia.
        Trata-se de um projeto realizado com crianças de 4 a 5 anos e que, diferentemente do que estamos acostumados, teve início no final de um ano escolar. Na Itália, os professores costumam permanecer com a mesma turma durante o ciclo escolar (no caso, pré-escola é de 3 a 5 anos de idade). Assim, as férias de verão, que são as mais longas, representam uma interrupção, mas os professores procuram encontrar formas de manter vivo o interesse das crianças em aprender.
        Para esse projeto, eles propuseram para os alunos que guardassem recordações e fragmentos da experiência que teriam durante as férias. Essa ideia também foi apresentada e discutida com os pais das crianças que concordaram em organizar uma pequena caixa que seria levada junto com a família na viagem de férias a fim de que as crianças pudessem guardar objetos ou pequenos tesouros, como uma pedrinha da montanha, uma concha da praia etc.
        Ao retornarem para a escola, os professores pensavam que iriam ouvir histórias sobre as aventuras ocorridas na praia ou nas montanhas, ou sobre pequenos, mas significativos momentos que envolviam barcos e ondas, porém, em vez disso, as crianças naquela classe trouxeram uma perspectiva muito diferente.
        Como as crianças conseguiam expressar-se com entusiasmo e os professores foram capazes de fazer as perguntas corretas, houve a oportunidade de iniciar uma proposta de aprendizagem diferente do que se esperava. O que aconteceu foi mais ou menos assim: um menino disse, ao compartilhar sua experiência que, “às vezes íamos ao píer. Caminhávamos por uma rua comprida estreita, com lojas grudadas umas às outras, e onde fica abarrotado de pessoas à noite. Algumas pessoas sobem a rua, outras descem. A gente não consegue ver nada, só consegue ver uma multidão de pernas, braços e cabeças”.
        Os professores, atentos à possibilidade de captar o novo, perceberam a palavra multidão e perguntaram às outras crianças o que significava para elas. Através dessa intervenção, foi possível descobrir que essa palavra se revelou incrivelmente rica nos significados que continha para as crianças. E os professores viram ainda que a turma demonstrava uma excitação incomum com esse trabalho.
        Vejamos o que algumas crianças disseram:
“É uma sacola cheia de pessoas amontoadas dentro.”
“É um monte de pessoas todas grudadas e perto umas das outras.”
“Existem pessoas que saltam sobre você e o empurram.”
“É como um lugar congestionado, quando é um feriado.”
“Existem montes de pessoas que estão indo ver uma partida de futebol. E só tem homens mesmo.”
“É um monte de pessoas todas amontoadas juntas como quando elas vão para pagar impostos.”
        Depois da discussão em grupo, os professores pediram que as crianças desenhassem seus pensamentos e palavras sobre a multidão. Quando eles viram os desenhos das crianças, descobriram que o nível de representação dos desenhos era inferior ao nível das descrições verbais. Assim, decidiram deixar o projeto de lado por alguns dias, e passaram a pensar sobre algumas questões, por exemplo, porque isso acontecia com as crianças, como eles poderiam ajudá-las a integrar suas diferentes linguagens simbólicas, o que fazer para que as crianças se conscientizem de seu próprio processo de aprendizagem. Decidiram, assim, ler em voz alta os comentários anteriores que as próprias crianças haviam feito (os professores costumam gravar as discussões das crianças e, posteriormente, transcrevem suas ideias) enquanto elas olhavam os desenhos. As crianças fizeram novos desenhos e, dessa vez, a professora observou um avanço com relação ao vocabulário delas, sendo que também as imagens tornaram-se mais elaboradas e detalhadas. Por exemplo: uma menina, recordando quanto à palavra multidão, disse: “Ela vai para a esquerda, para a direita, para frente e quando eles esquecem algo, eles voltam”.
        Em seguida, a menina percebeu que suas afirmações não combinavam com seus desenhos, já que as figuras no papel estavam todas voltadas para frente. Sentiu - se incomodada e rapidamente deu a seguinte explicação: no desenho, ela havia mostrado apenas um pedaço da multidão, com pessoas que não esqueciam nada e que por isso elas estavam todas caminhando para frente. Um outro menino revelou que em seu desenho todos olhavam para a frente, menos um cachorro que estava de perfil e admitiu que só sabia desenhar cães desse modo. Outra criança também falou sobre sua preocupação com seu desenho, explicando que, se as pessoas continuassem caminhando para frente, conforme ele havia desenhado, elas acabariam se chocando contra a parede.
        Surgiu, nesse momento, um grande desejo das crianças em aprender mais sobre como desenhar pessoas de costas e de perfil. Coube então à professora a tarefa de auxiliar, permitir que as crianças tivessem a oportunidade de realizar essa vontade. Assim, ela pediu que uma menina ficasse de pé no meio da sala, cercada por pequenos grupos de crianças colocadas em diferentes perspectivas, onde podiam observá-la, descrever seu corpo e posição e desenhá-la a partir de quatro ângulos: de frente, de costas, vista pela direita e pela esquerda. Dessa forma, as crianças puderam aprender muito sobre o conceito de perspectiva.
        É típico, nos trabalhos de projetos, a professora sair da escola com as crianças.
        Por isso, todos foram ao centro da cidade observar e fotografar as pessoas se movimentando e tornando-se também “multidão”. Posteriormente, elas analisaram as fotografias, e então, fizeram mais desenhos. A criança que só sabia desenhar seu cão de perfil trouxe orgulhosa o desenho de crianças também de perfil.
        O trabalho do projeto continuou com outras atividades que envolviam recorte, colagem, reduções de desenho por meio da fotocopiadora, confecções de marionetes, esculturas em argila, dramatizações e outras mais. E acabaram concluindo sua exploração com um projeto coletivo no qual sobrepuseram em uma caixa muitas de suas figuras para criarem uma multidão, exatamente como a colega dissera, “que vai para a esquerda, para a direita, para frente e então, quando esquecem algo, elas voltam”.
        Por meio desses exemplos, acredito ser possível compreendermos o quanto as crianças são capazes de questionar, de criar, de encontrar soluções. O trabalho com projetos permite o envolvimento conjunto de crianças e adultos, um compartilhar de conhecimentos e de descobertas.

Fonte: Coletado na internet, não conheço o autor.

Entrevista com Fernando Hernández na Revista Nova Escola.


Educador espanhol explica como trabalhar a aprendizagem utilizando projetos


Cristiane Marangon

NOVA ESCOLA – Como surgiu seu trabalho com projetos?
Fernando Hernández - Tudo começou em 1982, quando estava trabalhando no Instituto de Educação da Universidade de Barcelona e uma colega me apresentou a um grupo de mestres que lecionavam para crianças entre oito e dez anos de idade. Eles tinham uma dúvida que era saber se a escola estava ensinando a estabelecer relações, ou seja, a globalizar. Trabalhei com toda a escola durante cinco anos e, como resposta a essa inquietação, decidimos organizar o currículo de outra maneira. Por pesquisa de projetos de trabalho.

NE - Qual a diferença entre projetos de trabalho e pedagogia de projetos?
Hernández – A diferença fundamental é, em primeiro lugar, o contexto histórico. A pedagogia de projetos surge nos anos 1920 e projeto de trabalho surge nos anos 1980. Além disso, os princípios são diferentes. A pedagogia de projetos trabalhava um modelo fordista, que preparava as crianças apenas para o trabalho em uma fábrica, sem incorporar aspectos da realidade cotidiana dentro da escola. Os projetos de trabalho tentam uma aproximação da escola com o aluno e se vinculam muito à pesquisa sobre algo emergente. Eu não digo que uma coisa é melhor que outra e sim que são diferentes. É importante que isso fique claro.

NE – O professor que está em sala de aula lê a teoria, escuta em congressos e encontros e não sabe como fazer. Embora não exista uma receita, quais são os elementos principais de um projeto?
Hernández – Antes de falar sobre isso, há uma coisa muito importante. O trabalho do docente é solitário e uma das coisas que aprendi nessa experiência foi que a gente tem de compartilhar. Quando comecei a trabalhar com projetos nas escolas e surgia uma questão emergente em sala de aula, esse assunto pertencia à escola e não se restringia a um único educador. Eu me lembro de estar na sala dos professores, na hora do café, vendo os docentes discutindo uma proposta, expondo ideias e sugestões e, dessa maneira, todo mundo se envolvia no processo. O professor nunca estava sozinho.

NE – O professor se comporta assim por um problema de formação?
Hernández – Não, por um problema de postura mesmo. Por exemplo, se eu não sei alguma coisa, devo perguntar a você para que nós possamos encontrar respostas. O professor trabalha em uma organização que deve fazer trocas e não é só do educador para a sua turma e sim com toda a escola. Essa é uma mudança importante e fundamental.

NE – E quanto aos passos necessários para desenvolver um projeto?
Hernández – Para mim há uma série de condições e não uma série de passos. O livro “Organização do Currículo por Meio de Projetos” fala em passos porque no momento em que foi escrito era importante abordar o tema dessa maneira. Hoje, penso que é uma questão de opção educativa. Em primeiro lugar, é necessário que se tenha um problema para iniciar uma pesquisa. Pode ser sobre uma inquietação ou sobre uma posição a respeito do mundo. A partir daí, é importante trabalhar as maneiras de olhar o mundo que são diversas. Mas não interessa só localizá-las e sim entender o significado delas. O resultado é que se constrói uma situação de aprendizagem em que os próprios estudantes começam a participar do processo de criação, pois buscam respostas às suas dúvidas. Isso é o projeto de trabalho.

NE – Esses problemas devem ser apontados por quem? Professores ou alunos?
Hernández – Isso é acidental. O docente tem a capacidade de escutar o que está acontecendo dentro e fora da sala de aula, mas o problema pode sair de uma questão que as crianças levem para a escola ou ser um tema emergente na imprensa. O importante é fazer algo que desperte o interesse deles e nunca o que eles gostem. Se fosse o caso, bastava colocar uma televisão com desenhos animados na sala de aula.

NE - Um projeto didático tem de ser interdisciplinar ou o professor pode focar uma única disciplina?
Hernández – Se o docente tem uma concepção disciplinar e está ensinando Matemática, por exemplo, ele pode ensinar isso como um projeto. Pode também ensinar Língua Portuguesa. Projeto de trabalho não é uma fórmula e sim uma concepção de educação. O que temos de questionar é por que ensinamos essas disciplinas. Por que, dos 6 mil campos de estudos que existem, ensinamos apenas oito? Por que não ensinamos Antropologia, Cosmologia, Sociologia, Economia? Ensinamos as mesmas desde o final do século 19. Hoje sabemos que 80% das coisas que aprendemos na escola não nos servem. Não dão sentido ao mundo em que vivemos, não nos disciplinam, não nos socializam. Quando eu morava aqui no Brasil, fiz uma organização do currículo a partir de 12 problemas. Não me preocupei com disciplinas, pensei apenas nos problemas. Vida, morte, ser humano, cosmos, origem da vida, são alguns deles.

NE - É possível ensinar tudo por meio de projetos?
Hernández – Não é possível ensinar tudo por meio de projetos porque há muitas maneiras de aprender. Projeto é uma concepção de como se trabalha a partir de pesquisa. É bom e é necessário que os estudantes se encontrem com diferentes situações para aprender. Todas as coisas que se podem ensinar por meio de projetos começam de uma dúvida inicial. Nem tudo pode ser ensinado mediante projetos, mas tudo pode se ensinar como um projeto.

NE – Por que existe essa preocupação em reformar a escola? Tem a ver com o excesso de informações do mundo moderno?
Hernández – A escola, como toda instituição social, tem de dialogar com as coisas que estão acontecendo. O mundo atual não é igual àquele de quando nós ou nossos pais frequentaram a escola, portanto os processos de globalização da informação e comunicação implicam que a escola reflita sobre sua função e seus objetivos. A escola tem de ser uma instituição que pensa constantemente nos saberes do passado que precisam ser recuperados, resgatados e conservados, além de agregar o presente.

NE - O senhor tem alguma sugestão sobre as reformas educacionais brasileiras?
Hernández – Há reformas que são pensadas fora da prática. Um elemento importante são as crianças. Elas nunca estão implicadas nos processos de reforma. Muita reforma fracassa por causa disso. Hoje há muitos informes e reportagens sobre as direções da educação. Na minha opinião, a prioridade é a reforma estrutural e o Brasil tem uma grande vantagem em relação a outros países que é a possibilidade dos municípios desenvolverem sua própria reforma. Isso é muito interessante.

NE – Na introdução do seu livro “Transgressão e Mudança na Educação”, o senhor afirma que não é possível recriar a escola se não se modificam o reconhecimento e as condições de trabalho dos professores. Esse é o primeiro passo para começar uma reforma no ensino? Melhores salários, recompensas etc.?
Hernández – Um educador que tem de trabalhar em três turnos não tem tempo para se formar, se comunicar com os colegas, de preparar uma aula, de se cuidar, enfim, se as pessoas não têm condições de desenvolver um trabalho diferente, não dá para mudar a educação. Não podemos colocar todos os problemas da escola sobre os docentes. Temos que distribuir os pesos.

NE – O senhor acha que os projetos são melhor desenvolvidos no sistema de ciclos?
Hernández – Penso que não é essa a questão. Esse é um outro debate, outra discussão. O problema, aqui no Brasil, é que se leva em conta que não há a reprovação no sistema de ciclos. Não é nada disso. A ideia principal é que o aluno, no sistema de ciclos, não tem sua aprendizagem fechada, ou seja, para adquirir certos conhecimentos ele pode necessitar ou não de mais tempo. O que acontece é que a escola está muito fechada na ideia de que tem de trabalhar idade e série. Essa é uma concepção do século 17. A ideia de ciclo é muito mais dinâmica e aberta. Eu acho que a reação aos ciclos no Brasil é mais por um problema de compreensão. Uma criança que não é avaliada positivamente dentro de uma série não precisa ser necessariamente reprovada. Os ciclos são apenas uma estrutura de aprendizagem.

NE – E como fazer com uma criança que chega ao final dos ciclos sem saber ler?
Hernández – Isso não é um problema dos ciclos e sim da escola. Se durante quatro ou cinco anos o professor não ensina a ler, a responsável por isso é a escola. A reprovação não é um fracasso da criança e sim da escola.

NE - É possível vislumbrar uma visão positiva da educação do Brasil com a nossa realidade?
Hernández – O Brasil é um dos países do mundo que eu conheço em que os educadores vibram mais. Eles são apaixonados, preocupados, comprometidos. Esse é um capital que o país tem e não pode ser desperdiçado. Outra questão interessante é que o professor tem desejo de aprender e vontade de se comprometer com sua aprendizagem. Eu conheço poucos em outros países que não têm dinheiro e mesmo assim se reúnem em grupo para comprar um livro e aprender conjuntamente. Isso é maravilhoso.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O viveiro


Objetivos:
·       Desfrutar e valorizar as diferentes manifestações da natureza;
·       Conhecer algumas características das plantas, o seu crescimento e desenvolvimento;
·       Conhecer os cuidados com as sementes e plantas e os procedimentos para o plantio;

Atividades:
·       Visita a um viveiro de plantas: percorrer os diversos espaços do lugar, observando os ambientes criados segundo a variedade de plantas;
·       Entrevistar as pessoas do local sobre as principais tarefas que ali desempenham, a organização e manutenção; perguntar também sobre os inseticidas e fertilizantes, suas aplicações e resultados;
·       Observar as características das plantas que ali se encontram, os diferentes tipos de vasos (plástico, cerâmica, madeira, xaxim, descartáveis, etc.) e os acessórios utilizados como pás, ancinhos, tesouras, rastelos, regadores e outros;
·       Escolher uma espécie que se adapte às características do Centro de educação infantil para que seja cultivada neste espaço, levando em conta suas necessidades de luz, espaço, temperatura e rega.
·       Montar uma coleção aromática de plantas desidratadas (temperos como louro, orégano, tomilho, sálvia; plantas utilizadas para fazer chá como hortelã, camomila, erva-doce, erva-cidreira, poejo, menta e outros);
·       Plantar mudas de salsinha, alface, aipo, orégano, alecrim, repolho e de várias flores;
·       FLORES: observar e comparar as flores, alisar flores comuns e colocá-las entre duas folhas de papel toalha ou guardanapo e prensá-las com o peso de vários livros. Deixar por duas semanas e depois colar sobre cartões para presentear.
·       RAÍZES: Solicitar às famílias que enviem para a escola amostras de plantinhas e matos com diferentes tipos de raízes, observar, comparar, registrar e colocá-las para crescer em potes;
·       FOLHAS: Colecionar folhas de diferentes formas e tamanhos, fazer carimbos e relevos com folhas de árvores que possuem diferentes nervuras;
·       CAULES: Juntar galhos secos das árvores e montar arvorezinhas, decorá-las e fixá-las em uma base de massinha;
·       FRUTOS: Observar frutos cortados ao meio, extrair as sementes de tomates, pimentões e frutas, deixá-las secar e colocá-las para germinar.
·       Jogo matemático: O Semeador: Providenciar para cada jogador uma forma de gelo, dados e sementes grandes. Como jogar? Cada jogador joga o dado e coloca a quantidade de sementes correspondentes em sua sementeira, vence o jogo aquele que conseguir preencher a sementeira primeiro.



segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Projeto: Uma nave espacial.

Objetivos:
* Reconhecer algumas das características da Terra e do espaço exterior;
* Identificar máquinas e artefatos inventados e usados pelo homem para conquistar o espaço.

Atividades:
* Conversar sobre o espaço (conhecimentos prévios, hipóteses, informações);
* Solicitar as crianças que observem o céu todas as noites em suas casas e contem o que viram no dia seguinte. Assim pode-se conversar sobre: 1) A enorme quantidade de estrelas no céu faz com que não se consiga contá-las, as estrelas não estão distribuídas uniformemente e nem todas têm o mesmo brilho e nem a mesma cor. 2) O sol só pode ser visto durante o dia, a lua geralmente é visível à noite e em certas ocasiões durante o dia, o sol, a lua e as estrelas parecem mover-se lentamente atravessando o céu, mas na realidade quem se move é a Terra.
* Descrever e fazer leituras de textos e informações que se referem ao espaço e à tecnologia aeroespacial;
* Apresentar um filme sobre as viagens espaciais e conversar sobre elas;
* Construir uma nave espacial e uma roupa de astronauta para um boneco da sala;
* Construir o sistema solar com materiais recicláveis;
* Brincar de astronautas, planejar e disponibilizar todos os materiais necessários, dramatizar a chegada do homem à lua;
* Pesquisar em sites de busca fotos do espaço, dos planetas e estrelas;
* Caso a cidade possua um planetário, realizar uma visita com as crianças neste espaço;
* Para compreender o porquê do dia e da noite, pode-se pedir que duas crianças representem a Terra e o sol. Então, pedir à Terra que gire ao redor do sol e, ao mesmo tempo, sobre si mesma, sobre seu eixo. Se possível, dar ao sol uma lanterna para que dirija sua luz a Terra. Todos poderão ver como em algumas ocasiões se iluminará o rosto e, em outras não;
* Depois de realizar a atividade anterior, instigar as crianças a pensarem sobre o que estarão fazendo as crianças que habitam o outro lado do planeta, podendo representar estas informações através de um desenho;
* Confeccionar móbiles referentes ao espaço na sala;
* Expor fotos e informações sobre o espaço na sala.

Fonte: Revista Educação Infantil: o guia da professora n.40 Setembro de 2009.

Proposta de interações e brincadeiras: Caça ao tesouro sensorial

Campos de experiências: * Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. Objetivos de aprendizagem e desenvolvimento: * Classi...